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06/08/2026

BC reduz taxa básica de juros para 14% ao ano sem sinalizar novos cortes

O Banco Central (BC) cortou ontem a taxa básica de juros da economia brasileira de 14,25% para 14% ao ano. A nova redução se deve especialmente à desaceleração da inflação, que em julho subiu apenas 0,06%, segundo o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), somando 4,52% no acumulado dos últimos 12 meses. (Por Wanderley Preite Sobrinho)

O que você precisa saber
O corte da taxa básica de juros coloca a Selic em seu menor patamar desde março de 2025, quando esteve em 13,25% ao ano. Essa foi a quarta redução seguida de 0,25 ponto percentual decidida pelo Copom (Comitê de Política Monetária), órgão formado pelos diretores do Banco Central. A decisão repete os cortes realizados nas reuniões do colegiado em março, abril e junho.

A perda de ritmo da inflação no Brasil foi o argumento central para a nova rodada de redução de juros. Segundo o Banco Central, a atividade econômica indica resfriamento gradual, embora o mercado de trabalho continue aquecido. Apesar do alívio recente nos preços, o colegiado alerta que "a inflação cheia desacelerou, porém ainda acima do limite superior da meta, enquanto as medidas subjacentes desaceleraram para patamar ligeiramente abaixo do limite superior da meta".

No ambiente externo, o prolongamento das tensões geopolíticas reduz espaço para novos cortes. A imprevisibilidade internacional limita o ritmo de queda e eleva a instabilidade no mercado de matérias-primas básicas, segundo o Comitê. Diante dessas ameaças, a autoridade monetária diz que "o ambiente externo permanece incerto em função da indefinição acerca dos conflitos armados no Oriente Médio e da incerteza sobre a política monetária em algumas economias avançadas".

A condução fiscal da economia pelo governo continua exigindo cautela. O Banco Central afirma que a trajetória das contas públicas afeta a confiança geral, o comportamento dos preços de longo prazo e as cotações de ativos. O documento reforça que "o Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza".

O Copom evitou dar garantias sobre a continuidade do ciclo de cortes da Selic nas próximas reuniões. Os diretores indicaram que o ritmo de calibração continuará atrelado ao comportamento dos dados econômicos futuros e das projeções de mercado. O texto conclui que, "em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando a assegurar a convergência da inflação à meta".

A decisão foi unânime. Além de Gabriel Galípolo, presidente do BC, votaram os diretores: Nilton David (política monetária), Ailton de Aquino Santos (fiscalização), Izabela Correa (relacionamento institucional, cidadania e supervisão de conduta), Diogo Abry Guillen (política econômica), Gilneu Vivan regulação), Paulo Picchetti (assuntos internacionais e gestão de riscos corporativos) e Rodrigo Alves Teixeira (administração).

Horas antes da decisão do Copom, o presidente Luiz Inácio Lula (PT) disse que é preciso "resolver a taxa de juros". "Temos que cuidar para que, do ponto de vista econômico, a gente tenha bastante seriedade fiscal para não gastar aquilo que a gente não tem e, ao mesmo tempo, trabalhar para reduzir a taxa de juros", disse o presidente aos podcasts Meteoro Brasil e Os 3 Elementos.

"O único gasto que a gente faz de verdade é pagar R$ 1,2 trilhão de dívida de juros (...) Aqui no Brasil, o Estado foi aprisionado pela Faria Lima."
Presidente Lula, em entrevista.

Inflação fora da meta

O Comitê apresentou a projeção para a inflação acumulada em 2026: 5,1%. Para o quarto trimestre de 2027, o Copom projeta IPCA de 3,8%. Para o primeiro trimestre de 2028, a projeção é de IPCA a 3,2%.

O mercado financeiro espera que o corte de hoje não estimule a inflação. A aposta é que o IPCA termine 2026 em 5,03%. Essa projeção era maior na semana passada: 5,12%, segundo o Boletim Focus, relatório feito a partir das projeções de aproximadamente cem instituições consultadas pelo Banco Central.

A meta oficial da inflação é de 3%. Com permissão para oscilar 1,5 ponto percentual para mais ou menos, o objetivo será cumprido se o IPCA terminar o ano entre 1,5% e 4,5%.

A inflação de julho (prévia do IPCA-15) ficou em 0,06%. A alta oficial de preços foi de 0,16% em junho e de 0,53% em maio. Nos 12 meses finalizados em julho, o IPCA-15 caiu para 4,52%, portanto um pouco acima do teto da meta (4,5%). O resultado do IPCA fechado (oficial) de julho será divulgado na próxima terça-feira (11), no mesmo dia em que o Copom apresenta a ata com as justificativas para o corte de hoje na Selic.

O que diz o mercado?
Para analistas, a inflação menor ajudou na decisão do Copom. "A gente teve uma melhora importante nas leituras de inflação, tanto as leituras cheias dos indicadores quanto a composição", diz Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.

A possibilidade de acordo entre EUA e Irã pode resultar em novos cortes na taxa de juros. "A queda do petróleo abre algum espaço para cortes da Selic, mas não justifica, sozinha, uma aceleração do ciclo. Ela reduz o risco de combustíveis, fretes e insumos voltarem a pressionar os preços", diz Valdir Piran Jr., CEO do Grupo Intra.

"Com alguns indicadores de atividade agora mais fracos que o esperado e essa acomodação dos preços do petróleo lá fora (...) é possível que a gente tenha mais um corte ainda este ano. A expectativa é fechar o ano com Selic em 13,75% ao ano se não tiver reaceleração dos preços do petróleo que contaminem a inflação corrente."
Bruno Perri, da Forum Investimentos

Nem todo economista espera novos cortes. "Sem um controle real dos gastos públicos, não vejo espaço para redução dos juros até o fim do ano após este corte. E com a inflação pressionada, o Banco Central não tem margem para iniciar cortes de curto prazo", diz Jeff Patzlaff, especialista em investimentos.

Outros riscos no cenário internacional também podem impedir esses cortes no futuro. "O cenário externo continua marcado por riscos fiscais, institucionais, monetários e diplomáticos capazes de afetar câmbio, prêmio de risco e expectativas de inflação de forma mais persistente", diz Cassio Viana de Jesus, diretor da Pilar Capital.

Crédito caro
A Selic é a principal forma de conter a inflação. A elevação dos juros torna mais cara a tomada de empréstimo, inibindo o consumo e, consequentemente, a inflação. Por outro lado, seguidas altas podem enfraquecer o ritmo da economia, diminuindo a produção industrial e aumentando o desemprego.

Selic alta encarece principalmente a concessão de crédito e serviços financeiros. As taxas cobradas em empréstimos pessoais, financiamentos imobiliários e de veículos, além de linhas de crédito para empresas, ficam caras.

Mas investir em renda fixa é bom negócio com a Selic alta. Investimentos remunerados pela taxa básica, como o Tesouro Selic, oferecem retorno maior, enquanto a poupança perde ainda mais competitividade. (Fonte: UOL)

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