Banco público celebra aniversário com resultados financeiros expressivos, mas enfrenta críticas pelo encolhimento da rede, sobrecarga de trabalhadores e desigualdades estruturais no quadro de pessoal
A Caixa Econômica Federal completa 165 anos nesta segunda-feira, 12 de janeiro. Presente na vida de praticamente todos os brasileiros, o banco público é responsável pela execução das principais políticas sociais do Governo Federal e tem papel central no desenvolvimento econômico e social do país. No entanto, a data é marcada por contradições: enquanto os lucros crescem de forma expressiva, avançam o fechamento de agências, a redução da presença territorial e os impactos negativos para trabalhadores e comunidades.
O banco faz parte da vida de todo brasileiro, especialmente da população que mais precisa do Estado.
Fechamento de agências e prejuízos sociaisO processo de fechamento de agências da Caixa, iniciado em 2017, foi drasticamente intensificado em 2024 e 2025. Dados do Dieese mostram que a rede perdeu 196 agências desde então, passando de 3.404 unidades em 2015 para 3.208 ao final de setembro de 2025. Somente em 2024 foram encerradas 113 agências, e em 2025 outras 50 até setembro.
A redução da presença física do banco afeta diretamente a população mais vulnerável, sobretudo em pequenos municípios, áreas rurais e regiões remotas, onde a Caixa muitas vezes é o único ponto de atendimento bancário. Nessas localidades, o fechamento de unidades obriga famílias a percorrer longas distâncias para acessar benefícios e serviços que, em muitos casos, só podem ser resolvidos presencialmente.
Cada agência fechada é uma porta do Estado que deixa de existir para quem mais necessita. O Brasil precisa de mais presença territorial da Caixa, não menos.
A Caixa é o braço operacional de programas como Bolsa Família, BPC, FGTS, abono salarial, Pronaf e políticas habitacionais. Milhões de brasileiros sem acesso à internet, pacote de dados ou smartphone acabam excluídos do atendimento quando uma agência fecha.
Impactos na economia localAlém do efeito social, o encerramento de agências provoca prejuízos diretos à economia de bairros e municípios. Agências bancárias funcionam como polos de circulação de pessoas e recursos, sustentando o comércio local e os serviços.
Com o fechamento das unidades, comerciantes e microempreendedores enfrentam queda no movimento, redução das vendas e maior dificuldade para acessar crédito e serviços financeiros. Em diversas cidades, prefeitos e comerciantes relatam um verdadeiro “esvaziamento econômico” no entorno das agências fechadas.
Não é só o atendimento bancário que desaparece. O comércio sofre, os serviços perdem movimento, e a economia de bairros inteiros fica fragilizada. A Caixa tem papel econômico local que não pode ser ignorado.
Prejuízos aos trabalhadoresA reestruturação da rede também tem imposto perdas significativas aos empregados. Apesar do compromisso assumido em mesa de negociação de que não haveria prejuízo de função ou remuneração, a realidade tem sido diferente.
Empregados transferidos para unidades já saturadas acabam descomissionados, perdem gratificações e sofrem redução salarial. A sobrecarga aumenta, as filas crescem e o adoecimento físico e emocional se intensifica.
É inadmissível que colegas com décadas de compromisso com a Caixa tenham suas remunerações rebaixadas por uma decisão estrutural do banco, denunciam as entidades representativas.
Lucros recordes e contradiçõesOs números financeiros mostram uma Caixa altamente lucrativa. O lucro líquido contábil alcançou R$ 3,8 bilhões no terceiro trimestre de 2025, 15,4% maior que no mesmo período de 2024. No acumulado de janeiro a setembro, o banco somou R$ 13,5 bilhões, crescimento de 50,3%. Os ativos totais chegaram a R$ 2,2 trilhões.
Mesmo em comparação com grandes bancos privados, como Itaú, Bradesco e Santander, a Caixa apresentou desempenho superior em ritmo de crescimento, especialmente em áreas como crédito imobiliário, saneamento e infraestrutura.
Ainda assim, o banco encerrou setembro de 2025 com 84,3 mil empregados — quase 20 mil a menos que em 2014 — e 49 unidades a menos em apenas 12 meses. O número de clientes ultrapassa 156 milhões, evidenciando a contradição entre expansão das operações e redução do quadro e da rede física.
A Caixa apresenta lucro crescente, mas isso acontece à custa de um quadro de pessoal cada vez mais reduzido e de trabalhadores exaustos. Quem garante o atendimento à população é o empregado da Caixa, e isso precisa ser reconhecido.
Saúde Caixa e pauta urgenteAs despesas administrativas seguem praticamente estáveis, enquanto persiste o teto estatutário de 6,5% para os gastos com o Saúde Caixa. As entidades defendem a retirada desse limite para garantir o custeio 70/30 e a sustentabilidade do plano.
Desigualdade racial no banco públicoLevantamento do Dieese, com base em dados da Rais e do Caged, revela que a Caixa reproduz desigualdades estruturais do mercado de trabalho. Atualmente, 68,5% dos empregados são brancos, enquanto apenas 3,8% são pretos e 23,4% pardos. Nos cargos mais bem remunerados, a desigualdade se aprofunda: mais de 74% dos salários acima de 20 mínimos são ocupados por pessoas brancas.
As mulheres negras formam o grupo com menor presença nas faixas salariais mais altas. Mesmo com aumento de contratações de trabalhadores pretos e pardos nos últimos anos, a desigualdade salarial persiste.
A Caixa precisa assumir seu papel no combate ao racismo estrutural dentro da própria instituição”, defende Felipe Pacheco. “Não é aceitável que pretos e pardos sejam minoria nos cargos de gestão.
Defesa da Caixa públicaDiante desse cenário, o movimento sindical defende a suspensão do fechamento de agências, a recomposição da rede física, a garantia das funções e remunerações, a retirada do teto do Saúde Caixa e políticas efetivas de promoção da igualdade racial e de gênero.
A Caixa é o coração das políticas públicas brasileiras e um motor econômico das comunidades. Fechar agências enfraquece municípios, prejudica trabalhadores e afasta o Estado do povo. Isso precisa parar.
Aos 165 anos, a história da Caixa reafirma sua importância para o Brasil — e reforça que não há futuro para o banco sem valorização dos trabalhadores, presença territorial e compromisso real com sua função social. (Fonte: Seeb SP)
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