‘O Brasil tem um desafio institucional grande na política fiscal’, diz presidente do Bradesco

19/01/2026
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Entrevista com Marcelo Noronha (Presidente do Bradesco) - foto reprodução - 

Marcelo Noronha projeta para este ano uma desaceleração do crédito e captações menores de empresas; ele também defendeu o papel técnico do BC no caso da liquidação do Banco Master (Por Altamiro Silva Junior (Broadcast))

O presidente do Bradesco, Marcelo Noronha, está em Davos, na Suíça, para a nova edição do Fórum Econômico Mundial, que começa nesta segunda-feira, 18, e tem como estrela maior a presença do presidente americano Donald Trump.

Antes de participar de uma série de reuniões e encontros, o executivo falou com o Estadão/Broadcast sobre o que esperar para 2026. Entre as ponderações, a percepção de que o mercado de crédito deve mostrar desaceleração, na pessoa física e na jurídica, e a avaliação de que as captações das empresas no mercado de capitais também podem ser menores, caindo entre 10% e 20% por causa das eleições, que deixam a iniciativa privada na defensiva.

Noronha também engrossa o coro dos que defendem o papel técnico do Banco Central no caso da liquidação do Banco Master. Na política fiscal, o presidente do Bradesco argumenta que, independente de quem ganhar nas urnas este ano, o País tem um problema estrutural que terá de ser enfrentado, e Brasília precisa ao menos tentar estabilizar a relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto (PIB). Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

O Fórum de Davos começa em meio a uma piora da geopolítica mundial e com a presença de Donald Trump. Qual sua expectativa para o evento?

Acho que o tema mais relevante é o aspecto da geopolítica mundial. Em segundo, é o tema da inteligência artificial e da produtividade nas economias.

Os números mostram que as tarifas de Donald Trump não atrapalharam tanto o crescimento mundial. Qual o cenário do banco para o crescimento em 2026?
Em 2025, o PIB mundial deve ter crescido ao redor de 3,3%. A perspectiva para 2026 é muito parecida, de 3,2%. O impacto das tarifas não foi tão relevante assim, a economia mundial conseguiu absorver. A China está exportando deflação para o mundo, porque tem uma capacidade produtiva brutal. Então, muita coisa foi atenuada e o mundo vai crescer acima do Brasil.

E para a economia brasileira, qual o cenário, considerando o ano eleitoral?
Um crescimento ao redor de 1,5% em 2026, mesmo com um nível de desemprego bem baixo, na casa dos 5,5%. O que é surpreendente nesses últimos anos e vai continuar sendo é o mercado do trabalho e a massa salarial. A massa de renda também tem crescimento em 2026, porque o consumo das famílias ainda está sendo segurado por esse crescimento de renda que veio principalmente pelo salário.

O que esperar do investimento privado no Brasil para 2026, ano em que os juros podem cair, mas devem seguir em dois dígitos?
Os investimentos vão ser um pouco mais amassados e compactados, crescendo pouco em 2026, ao redor de 0,5%. Essa expansão vem principalmente do setor público, de alguns municípios e Estados que estão muito capitalizados. A inflação deve ter encerrado o ano convergindo para a meta e para 2026 estamos trabalhando com 3,8% de IPCA. A Selic deve cair para algo como 12%, mesmo assim ainda um nível alto, com uma taxa de juros real na casa dos 9%. Vamos lembrar que tem eleição e o mercado costuma ficar um pouco mais volátil. Isso também pode ser um inibidor temporário do investimento na iniciativa privada.

Qual sua visão para o mercado de capitais este ano, considerando que 2025 foi novamente um ano forte? Renda fixa tende a desacelerar?
Em 2025, olhando até novembro, houve um crescimento ao redor de 6% nas captações no mercado de capitais. Com o fechamento de dezembro, a expectativa do nosso time de mercado de capitais é que o ano feche com um patamar acima de R$ 700 bilhões, volume muito expressivo, similar ao de 2024. Para 2026, pode haver uma queda de 10% a 20% desse volume global, porque você fica mais travado durante o período eleitoral. Então tem mais instabilidade.

Nas emissões externas, o ano de 2025 teve volume alto. Como o sr. vê as captações no exterior em 2026, ano em que o Bradesco puxou a fila e foi o primeiro a emitir? Vêm mais emissões depois da que o banco fez?

Vêm. Fizemos a primeira emissão do mercado de 2026, de US$ 750 milhões, e com um nível de taxa super convidativo. Havia até a expectativa de a taxa ficar um pouco mais alta. Foram bons compradores, com o livro cheio. E vêm mais coisas, está convidativa a demanda. A América Latina toda emitiu bem. Há previsão de corte de juros nos Estados Unidos e isso facilita também. Em 2025, foram captados no mercado US$ 36 bilhões, volume mais de 50% superior a 2024. Agora, espera-se uma queda também do volume, podendo ficar entre US$ 20 bilhões e US$ 25 bilhões em 2026, pelo ano eleitoral.

Como o banco está vendo o crédito para a pessoa jurídica em 2026?
A expectativa é que haja desaceleração, considerando as previsões dos economistas para o mercado como um todo. Em 2026, a expansão deve ficar em 4,8%, comparado com alta de 8% em 2025

E na pessoa física?
Na pessoa física, devemos sair de um crescimento de 10%, 10,5% em 2025 para ao redor de 9% este ano.

O que explica essa desaceleração nos dois casos? A economia crescendo menos?
Exatamente, você tem inibição de investimentos. E o próprio apetite a risco, porque você tem riscos em certos públicos.

Como o sr. vê a perspectiva para as emissões de ações pelas empresas em 2026? Acha que tem alguma coisa no Brasil este ano ou abertura de capital será só no exterior?

Fora do Brasil, deve ter sim. Tem demanda para isso. No Brasil, para IPO ainda não estamos vendo essas janelas. O primeiro botão que você aperta para isso é a queda da taxa de juros. É a primeira variável que tem de estar na mesa. Com a queda de taxa de juros, isso vai ficar mais palatável. Mas quem sabe, mais no fim do ano pode haver algum IPO. Para follow-on (ofertas de empresas já listadas), achamos que há mercado. Por enquanto, o cenário é follow-on aqui, muito mais do que a IPO.

Voltando ao mercado de crédito, como está a perspectiva para a inadimplência em 2026, com juros caindo e o desemprego também?

Estamos trabalhando com um cenário muito estável. Não vejo nenhuma explosão de inadimplência no Brasil. Há, sim, menos apetite a risco no mercado, de uma forma geral, por conta do próprio nível e comportamento da renda familiar, e obviamente, para as empresas que são menos capitalizadas, estão mais alavancadas. Então, o apetite a risco é menor nesses casos. E isso explica um pouco aquela desaceleração que a gente falou no crédito na pessoa física e jurídica.

Falando de empresas endividadas, acha que o pior das recuperações judiciais já passou? Ou ainda tem coisa para acontecer?
Se você pegar as empresas em RJ, no ano passado, elas não estiveram fora de um patamar histórico. A segunda maneira de olhar é que tivemos uma concentração de RJ no agronegócio, em certas regiões e em certas lavouras. Houve uma certa indústria de RJ para tentar resolver alguns casos, que eventualmente até nem precisavam entrar em RJ. Então, eu não vejo nenhum tipo de espasmo aqui. É óbvio que uma taxa de juros real desse patamar atrapalha muito a empresa que tem uma margem mais comprimida e já tem algum grau de alavancagem, com dificuldade em pagar os encargos da dívida.

Febraban, Anbima e várias outras associações do mercado saíram publicamente em defesa do Banco Central no caso da liquidação do Banco Master. Como o sr. está vendo essa discussão?
Prefiro não fazer comentários aqui que não sejam institucionais, a Febraban nos representa. Vamos acompanhar o desfecho, né?

No geral, os posicionamentos falaram no sentido de apoiar a independência do Banco Central e de sua habilidade técnica. Nesse sentido, certo?
A defesa é uma defesa óbvia, a do papel do Banco Central. Você liquida banco aqui, nos Estados Unidos e em qualquer lugar. Eles têm de levar em consideração aspectos técnicos. Então, você pode ter certos debates, mas respeitando o caráter da Justiça.

Como o sr. avalia o cenário fiscal este ano para o Brasil, considerando que é um ano eleitoral?
O Brasil tem um desafio institucional grande na política fiscal. Ele se reflete no nível de dívida pública, que já supera 80% (na relação dívida/PIB). E o desafio para os próximos anos é ver essa dívida se estabilizar. E, do outro lado, a taxa de juros menor, porque os juros são um outro ofensor para o endividamento. Então, se você tiver uma combinação razoável aqui e conseguir estabilizar essa dívida, você controla bem. Mas é claro que tem de mexer com certas linhas do gasto público. É um desafio estrutural do Brasil, e vale para o ano de 2026 e para o próximo presidente. O ideal seria ver essa dívida pública caindo, mas pelo menos estabilizar a dívida é importante. O que não podemos ter é uma dívida que continua andando, porque se continuar, é o câmbio andando, com efeitos colaterais, como na inflação, você perde o valor dos seus ativos. O Brasil precisava estar crescendo a 3% ao ano para estabilizar a dívida e a taxa de juros tem de estar em 3%. (Fonte: estadão)

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